Tempos atrás escrevi o texto “A pátria de ferraduras” no site da IDEA – http://www.ideiadiferente.com/?p=322 – falando da dificuldade que estamos criando com o contraditório e com quem pensa diferente. Na época mencionei Dunga, técnico da seleção brasileira naquele momento, como símbolo do fato. Alguns trechos podem apresentar melhor minha argumentação, já ditas naquele texto:
Criou-se no país, de alguns anos para cá, uma atitude que nunca antes na história desse país aconteceu: a dualidade odiosa. Tornamo-nos uma raça de fanáticos, que não aceita o contraditório.
E mais ainda:
Mas aos fanáticos nada é tão compreensível e simples. E então a vilania se torna método, e o comportamento dualista se reflete em várias outras situações do cotidiano do país. E então qualquer crítica é vista como ameaça e declaração de guerra. Não se permite mais o contraditório, precisamos alinhar e pensar todos iguais sob pena do preconceito ao diferente.
Bom, a gente sempre alimenta uma esperança de que as coisas podem tomar rumos mais produtivos e que a humanidade ainda tem esperança. Mas realmente a capacidade humana de decepcionar é surpreendente e interminável, e eis que me encontro novamente com a prova do que de pior o ser humano pode proporcionar. Explico…
Facebook. Tens perfil por lá? É uma ferramenta ótima para mim. Faço contato com amigos, alinho projetos da banda e até mesmo tenho discussões e negociações bem interessantes com atuais e futuros clientes. Enfim, é um canal de comunicação que me serve muito bem. E tenho por hábito navegar ao menos uma vez por dia, dadas as minhas limitações de tempo, e ver o que vem sendo dito, comentado, mostrado, apresentado e compartilhado. Numa dessas achei uma discussão sobre a nova presidente da Petrobrás que me chamou a atenção, mas não por causa da tal presidente, e sim por causa de alguns termos usados por um dos debatedores.
O sujeito que apresentava a matéria elogiosa à presidente da Petrobrás começou a argumentar que o outro “não sabia do que estava falando” e que era “leitor de Veja”. Foi irresistível, claro. Se me preocupo e me incomodo tanto com o nível do debate hoje em dia, esse ato de generalização sempre me chama atenção, porque mostra uma tentativa de rotular e desacreditar o adversário do debate, numa simplificação que alterna pobreza de argumentos, canalhice e patetice.
E aí soltei esse comentário:
O duro é o nível ridículo que a argumentação da antiga esquerda alcançou. São os donos da verdade e qualquer um que pense diferente é “alienado”, “desinformado” ou “leitor de Veja”. Incapazes de argumentar com contrários, só sabem conversar entre iguais. Triste, porque houve um dia em que a esquerda teve grandes pensadores, hoje possui bons papagaios que repetem o discurso ad nauseam sem se prestar a argumentar e debater. É mais fácil ridicularizar o ponto de vista do outro, é mais fácil posar de sabichão conhecedor das verdades do mundo, é mais fácil não debater. E ainda escrevem “bossais”. Falar o que, né?
O comentário sobre “bossais” foi uma crítica direta ao descuidado jeito de escrever do tal debatedor. Mal sabia eu que cutucava uma fera fanática sem controles e violenta. Eu que já fui ameaçado por gente muito mais perigosa no meu trabalho, não costumo dar muita pelota para revoltados internéticos, e não foi diferente dessa vez. Tentei responder-lhe no Facebook, mas não consegui. Daí vir aqui para um texto, isso foi um pulo.
Eu devia ter farejado o estilo quando vi o sujeito chamando os governos do Irã ou da Líbia de “governos autônomos” e se perdendo todo ao colocar a Colômbia ao lado desses países. Devia ter entendido o nível de paixão quando ele acendeu duas velas aos pés de José Dirceu, chamando-o “adoradíssimo”. Devia, mas preferi alimentar o embate porque me pareceu pessoa capaz de conversar e alimentar uma prosa antagônica, que sempre me diverte muito. E que algumas vezes me ensina bastante.
Não sendo pouco argumentar sobre o poder e capacidade de Lula, alvo de admiração de muitos; antagonizando com Obama e Eike (!!!!) que seriam figuras odiosas e, pelo visto, comparáveis ao nosso ex-presidente. Não vejo nível de comparação, mas o argumento do fanático não obedece a critérios racionais ou comuns, possui práticas próprias.
Usando termos como “você precisa voltar pra escola” e “você não sabe de nada do que acontece” ele construiu uma rede de sandices alimentada pelos ideólogos partidários que me pareceu bem divertida. E mais ainda, achei que seria legal alimentar o debate.
Chegamos a bater um papo pelo MSN, mas eu tinha obrigações paternas para cuidar e precisei encerrar a conversa. E olha o nível da tontice, porque achei que a prosa tinha sido amistosa, que poderia render trocas sadias de opiniões e assumi o compromisso de voltar a conversar com ele. Minha preocupação não era o Pt, a Dilma, a presidente da Petrobrás ou o capital internacional; o que me chamava – e chama – atenção é o debate e a forma como ele se constrói atualmente no país.
Enfim, fui cuidar das minhas coisas, depois corri para o aeroporto, e fui atender meus clientes de fora de Goiânia e muitas horas depois pude novamente dar uma olhada no Facebook. Qual não foi minha surpresa? A criatura, que havia se mostrado tão cordato e gentil quando conversando exclusivamente comigo, se mostrava todo valente e fortão nas mensagens abertas do Facebook. Que coisa triste…
Com termos ridículos e coisas parecidas a criatura se dirigia a mim como se fosse o maior rival de sua vida. Eis a mensagem do bravinho, vou comentando no meio da mesma:
Ahh apareceu, pensei que iria correr, muto bem. Primeiro que, no âmbito a amizade, tu fica de fora, porquê não me parece capaz de alcançar o que isso significa.
Isso porque ele argumentou estar debatendo antes com um amigo e que com ele tinha liberdade para falar daquela forma. Claro que isso foi dito na conversa privada entre nós dois, no que aparece aberto na web me veio com isso. Correr de que? É uma briga? Eu não sabia mesmo, achei que seria um debate, no máximo. O resto dito nem comento. É bobo, parece coisa de menino xiliquento que tomaram o brinquedo.
Segundo, não de que meio do inferno tu saístes, porquê só pode ter sido do meio do inferno, pra vir aqui falar tanta besteira. Também não sei onde andas aprendendo essas coisas.
E olha isso, que conversa é essa de “meio do inferno”, pelamordedeusinho? A digitação é um desastre, mas isso comento daqui a pouco, essa história de tentar ofender assim já cheirava ao ridículo, mas ainda tinha mais.
Fui dar uma olhada num texto “tão construtivo” sobre aquele tal de Carlos Nascimento, mas confesso que não consegui, é muita besteira junta. A começar pelas linhas iniciais, que aqui transcrevo:
“Honestamente? Nascimento, com uma carreira extensa no jornalismo, já teve momentos mais brilhantes.”
Dizer que Carlo Nascimento é brilhante realmente não dá.
Um sujeito que é tudo, menos sério, que nunca informou, apenas confundiu, manipulou a sevço dos patrõezinhos deles.
Aqui ele se referia ao texto que fiz sobre o comentário do Carlos Nascimento no telejornal do SBT. Qualquer pessoa que não seja um analfabeto funcional consegue entender a diferença quando se diz que a pessoa “já teve momentos mais brilhantes” de chamar a pessoa de brilhante. Até esse menino nervoso já deve ter tido momentos mais brilhantes, e estou longe demais de achar que ele possa ser brilhante. Com dificuldades tão nítidas de interpretação de texto, entende-se que repetir uma cartilha do partido seja tudo que lhe resta. Se tivesse compreensão de texto ia ver que eu falei exatamente isso no meu texto, que o Nascimento não era sequer jornalista, mas um âncora que repetia o que diziam para ele repetir. Que participou de grandes armações da grande emissora quando esteve lá.
Entendem o nível que chega o comportamento patológico? Em um ponto eu e o doido concordamos, mas como ele foi ler o texto já eivado de revolta, não conseguiu entender a identidade de opiniões. Como explicar algo para alguém que não quer entender? Ele quer apenas repetir a cartilha, falar mal da empresa odiada, porque pensar ou ler o texto inteiro pode lhe ser doloroso. Tem mais? Claro que tem.
Ma enfim, o que vi ali foi você questionar se é bossal ou boçal; Não e faça rir, se apegou na pequenez da coisa, até porquê, se és tão bem informado, deveria saber que a língua não tem regras, ela é um ser vivo e mutante.
Eu queria ter tempo de fazer uma revisão nos seus textos, deve ser uma aula de gramática.
Quem me lê sabe que não sou professor de gramática, mas me esforço muito para escrever direitinho. Entendo que a língua é viva, mas foram as regras e normas que nos trouxeram até aqui, inclusive sabendo que a língua formal é a base de integração de qualquer nação. Esse dinamismo não é desculpa para escrever errado e achar que está certo. Seja homem! Se escreve de forma porca, assuma que não se preocupa com isso ou que não consegue fazer melhor, mas não me venha com discurso pronto de “não tem regras”, porque na verdade tem sim. E olhem o dado triste, em um parágrafo em que comento o nível do debate político do país, eu comento em uma linha – quatro palavras, se muito – sobre o erro de digitação. Mas foi só isso que o bestunto conseguiu ler. Ele não entendeu o texto lido, ele tem dificuldade de interpretação de texto, ele se apegou à tal “pequenez” da coisa e que realmente é pequena. Mas eu não havia dado tanto crédito assim a isso, mas para ele foi o máximo que conseguiu entender. Talvez porque eram as últimas linhas e só isso ficou na memória de peixe dourado que parece possuir.
E outra, lá mais uma vez vc faz críticas aos erros de português, quem é você cara pálida, pra vir aqui ser o censor da língua? Se liga mermão, o Lula fala e escreve errado e não houve, na humanidade, um ser que fizesse metade do que ele fez. Salvar da fome 14 milhões e pessoas, isso não tem parâmetro na humanidade, mas é claro, deve ser mentira né? Pelo menos o Nascimento, esse jornalista “sério”, fala que é.
Não me arvoro de censor da língua, mas não aguento algumas besteiras cometidas na web, principalmente quando vem de arrogantes que se acham tão sábios e inteligentes, em contrapartida aos que “não sabem nada” ou que somente leem Veja. Fato: o sujeito escreve mal, escreve errado, digita pessimamente e acha ruim que comentem isso. A lembrança do pseudo-analfabetismo do Lula só piora a linha de raciocínio porque isso talvez tenha sido o pior que Lula fez: justificou a falta de estudo. Reforçou uma mítica de que o estudo não interessa, que a leitura é chata, que querer aprender e saber é preconceito “elitista”. E de novo ele mostra que não entendeu o que leu sobre meu comentário a respeito do Nascimento.
Os argumentos dele sobre meu comentário a respeito do gosto cultural do nosso povo são até interessantes. Veja:
Ahh, diga-se de passagem sobre o seu comentário em relação ao gosto cultural “duvidoso” da população. Aqui no Rio, o Theatro Municipal desenvolveu um projeto de Óperas e espetáculos eruditos a preços populares (R$1,00). rapaz, dava voltas no quarteirão de gente “burra, sem cultura e desinformada” O Projeto Aquárius, promovido pela (ARGHHH) Rede Goebels, sempre foi um sucesso de público. Só favelado, burro, desinformado e sem cultura. então meu amigo, das duas uma. Ou você está certo ou o Mundo, temos que decidir.
E ele me disse isso aí pensando que me agredia, pelo visto. Achei ótimo ler isso. Mas isso não é a prova de que nosso povo está se fartando de cultura erudita ou de músicas clássicas. Isso é a exceção! O quarteirão dando voltas ou a audiência do BBB? Qual deles – por maioria numérica, para definirmos um critério – define uma raça? Quem está se iludindo? Essas iniciativas são louváveis e sensacionais (e imagino o tanto que ele sofre por uma dessas iniciativas ser da Rede Globo), mas são um pequeno início e não um costume popular. Mas, de qualquer forma, prefiro ver esses exemplos, e olha que o maluco até me mostrou coisas boas. Lendo isso fui dormir cedo porque precisava acordar também muito cedo para um treinamento, achei que a coisa estava indo para o bom rumo, quando hoje vejo isso:
E aí ô seu Pela saco do caralho Eduardo Mesquita? Despareceu? Bora mermão, tu num é o macho? Tô te esperando.
Esse é o nível do debate. Infelizmente preciso entender que esse é o nível de argumentação e debate que muitos hoje em dia possuem. E são alimentados em madrassais de ódio ao contrário, ao oposto. Chega o momento em que o debate político, que alimentava rodas amistosas de cerveja e torresmo, se torna um perigo físico, uma situação de rompimento de relacionamentos, uma ceva de rancor. Gente assim alimenta ideais misógenos e rancorosos, representados por algumas imagens e piadas tão machistas quanto cafonas, que ali para seu próprio deleite, lhe são bem válidas. Quando uma amiga nossa em comum tentou argumentar com a besta-fera ideológica, eis a resposta:
Num ferra, vem lá do meio do infernos se meter onde não é chamado e só fala merda. Botar logo é pra fora daqui, energia ruim eu quero longe de mim.
O sujeito é perturbado, isso já é claro. O difícil é perceber que essa perturbação é alimentada por uma ideologia que se sustenta em ideólogos partidários, sites partidários, revistas partidárias e discursos panfletários partidários. Claro que vamos encontrar gente que apóia qualquer ideologia, mas acredito firmemente que a construção de um ponto de vista crítico se encontra SIM lendo Veja e CartaCapital, visitando o site do PortalVermelho e do Reinaldo Azevedo, comparando, analisando, estudando, pensando e fazendo escolhas pessoais. Estamos chegando em um momento que os homens bomba se formam, se criam e andam em meio aos civis e normais como se normais fossem. Mas qualquer comentário dispara uma reação raivosa – por várias vezes ele comenta em seu perfil que “vai reagir com violência se alguém falar” desse ou daquele assunto – que pretende até mesmo delimitar o espaço de participação. A isso chamamos censura. Então um comentário aberto no Facebook precisa de convite ou autorização para ser comentado também? Claro, se fosse algo favorável, não haveria problema, mas como foi algo contrário então foi o ato de quem quer “se meter onde não é chamado”. Típico de quem tem dificuldade de achar coerência em seus atos, porque como explicar tanta raiva contra as 150 corporações que “dominam” o mundo ao usar o Facebook? Então só a Coca e a Nestle que são demoníacas, mas o Facebook é alimentado por dinheiro socialista? Onde está a coerência de um rebelde tão conveniente assim? Claro, isso é natural para quem lê filosofia comentada e não consegue entender sequer as orelhas dos livros. Comparativamente são orelhas menores do que as do leitor citado.
Tenham medo, eu já disse e repito, tenham muito medo. Os que se organizam em grupos não aceitam os que não praticam tal ato. Os que alimentam-se da ideologia dominante pretendem uniformizar o pensamento ou exterminar o contraditório, e isso tem nome também: ditadura. E isso não é uma invenção de agora, sejamos claros, mas agora se encontra sendo praticada com método e estrutura.
Diferente do sujeito – que propositalmente não mencionei nome ou link, prefiro não divulgar gente assim – eu não tenho cartilha ideológica. Tenho por princípio não gostar de governo nenhum, mas não escolho meus ódios pela cor da bandeira ou pelo tom da gravata. Diferente desse imbecil, não me comporto de forma tão raivosa apenas porque a pessoa pensa diferente de mim, já que aprendi a entender que a minha verdade é uma dentre um monte, e que essa minha verdade nem sempre é a melhor. Quase nunca é a dominante, mas já me acostumei a ser o sapo que ruge.
Em casos doentes como desse fanático, só torço para que quando conseguir tirar as patas dianteiras do chão e consiga se firmar nas patas traseiras, mesmo assustando outros animais possa entender que com o diferente usamos de elegância, erudição, até soberba às vezes, mas sempre EDUCAÇÃO.
Não, eu não corri, já que estávamos conversando na internet, diabos! Não se foge de um debate aberto, mas pode se escolher evitar descer ao mesmo nível. Se para ele sou um “pela saco do caralho”, nem sequer vou lamentar por isso, mas lamento pela incoerência de quem usa Osho em uma página, argumentando precisar remover os elementos grosseiros do ser e em outra vocifera seu ódio ao diferente. Sugestão para o perturbado, leia o texto de Osho que colocou em seu perfil e veja quão distante se encontra daquilo.
Sim, sou macho. Mas não me provo macho disputando ofensas com alguém pela internet. Já fiz isso, assumo, mas consegui entender o tanto que soava adolescente e vazio.
Se você espera tão ansiosamente um macho, fique à vontade, te aceito como meu diferente. Mas não me presto às tuas satisfações.
Eu queria um debate, você quer briga.
Não estamos servindo isso hoje.
Hoje fiquei triste.
Estou assim.
Sentir-se como ao receber uma notícia ruim? Pouca escolha tem um vivente quando ele vê que uma era se encerra, e não importa se existe uma continuidade ou não, porque algumas horas precisamos enfrentar o luto, o desconforto e seguir andando. Aceitar que acabou. Hoje o Loaded terminou. O anúncio formal foi feito pelo informal e indecente palmeirense Alexandre Moreira, meu amigo que gosta de usar shortinhos jeans apertados e indecentes e foi postado no site do programa. Você lê o texto bonito dele aqui: http://www.programaloaded.com.br/.
Bonito texto, mas que não consegue esconder uma ponta de dor (e nem sei se tentou esconder), um gosto amargo no final do drink.
Para você que ainda não entendeu do que falo aqui, estou falando do LOADED E-ZINE, o programa de web radio mais longevo e deliciosamente sacana que eu já participei na vida. É bem verdade que não participei de tantos assim, mas a trilha desenhada por esses malucos paulistas é de longe um dos melhores exemplos que o rock independente desse país pode ter atualmente. E nem sequer sei se eles sabem tocar alguma coisa, além de goles gelados para dentro de suas goelas sedentas. Penso que jamais tiveram banda, ou se tiveram, ao menos foram sensatos o suficiente para encerrar as atividades – deveriam ser terríveis fazendo música – e se dedicarem ao que poderiam fazer bem. E fizeram com altíssima octonagem e qualidade.
Tive a honra de ser chamado para participar desse programa de incautos quando comecei a me meter a escrever no rock independente. Eu tinha tempo, tinha muita vontade de participar, falar o que pensava e – sejamos francos – aceitava qualquer convite que aparecesse. Foi assim que aceitei o convite de gente que eu nem conhecia, mas que já ouvia e me divertia pela web. Nenhuma dificuldade técnica segurava esse combo de doidos, e logo eu já tinha recebido um microfone na minha casa, orientações, dicas e um monte de material novo para escutar. Sequer ouvi metade do que me apresentaram, já que minha dedicação nunca chegaria à metade da dedicação de um pé esquerdo deles, mas conheci muita coisa legal sendo a filial Goiana do Loaded.
Pude conhecer também muita gente bacana, como Mestre Gustavo Vasquez, que mui gentilmente me gravava nas minhas primeiras participações do programa. E em intervalos corridos de almoço (eu nessa época era celetista) eu ia até o RockLab e fazia minhas intervenções serem registradas pelo mago-produtor maluco, que também topava qualquer insanidade nesse tempo.
Tive a honra de ouvir o SANGUE SECO em algumas oportunidades no programa, e músicas de todos os CDs que gravamos foram tocadas no programa, sempre generosamente comentadas. Tive a grata satisfação – que quero novamente ter – de receber em minha casa esses fritos e entre goles de cachaça e sabores goianos preparados com desvelo, darmos risadas eternas de tanta maluquice vista no rock desse país.
O rock. Isso que nos aproximou, isso que nos identifica. Talvez não estejamos mais tão dispostos ou disponíveis como antes, talvez agora com outras responsas, contas, amados e amadas, coisas e troços em nossas vidas, o tempo para o Loaded tenha se tornado pouco. Eu sei que o meu se extinguiu e a filial Goiana foi fechada porque já não conseguia gravar os programas sequer em minha casa, e depois de ter parado de participar ficou difícil, ruim, ouvir o programa.
Ouvir o Loaded depois de ter saído dele me parecia como ver uma festa do lado de lá da grade. Todos se divertindo e eu tomando chuva no meio da calçada, feito um idiota que não conseguia estar lá dentro. Saber agora que a festa está acabando não torna nada mais fácil, pelo contrário. Agora ninguém mais vai curtir essa festa, talvez as velhas fotos das festas antigas, em gravações que já são eternas, em lembranças que não se vão nessa chuva, em malandragens, pequenas mentiras, safadezas e truques que juntos inventamos para manter essa festa sempre vibrante.
Não dou créditos a ninguém por esse fim. Nem correria, nem pressão, nem grana, nada disso – assim como muito elegantemente Alê fez em seu texto – pode justificar ou ser causa do que acontece. Temos que aceitar que algo acabou, mesmo sabendo que um dia tudo isso ainda vai fazer sentido. Até mesmo essa morte, morte que não tem senhores, que não celebra nem canta hinos, que não honra nem encanta a ninguém.
Hoje fiquei sabendo que o Loaded acabou. E agora se torna ainda mais urgente o momento em que vou poder receber novamente Valter Resende & Alexandre Moreira (e mais outros loaders como eu, como Luciano Carioca) na minha casa. Fazer uma outra picanha na mostarda, uma moqueca baiana caprichada, uma panelada de pequi (para eles, porque eu detesto), e entre goles de cachaça e boa cerveja gelada vamos celebrar o ritual dos que sobrevivem: vamos relembrar.
Ainda que doa, vamos relembrar.
Aos meus amigos/irmãos LOADERS, contem comigo. Sempre. A filial goiana ainda existe.
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
twitter – @eduardoinimigo
O Grito do Inimigo – 99 – Contrastes
O Grito do Inimigo – 99 – Contrastes
Um ronco?
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Lembro como nos conhecemos, foi tudo muito interessante. E por muito tempo as pessoas comentaram o tanto que não tínhamos em comum. Eu tão isso, ele tão aquilo. Era engraçado. Ele dizia não notar diferença entre a gente, eu achava aquilo lindo.
Seu charme era algo que me deixava tonta. Só de ver aquela cara risonha e despreocupada, eu já sentia minhas pernas bambas e uma tonteira leve tomava conta de mim, eu, uma mulher de 38 anos de idade. Pensei que não sentiria mais essas coisas depois do suposto fim da minha adolescência, mas ele me provou que eu ainda podia sentir tudo aquilo. Calor, nervosismo, até gaguejei uma vez conversando com ele. Queria muito impressionar aquele homem, queria muito mostrar pra ele que eu era uma mulher interessante, queria muito ser interessante pra ele.
E eu fui. Não que ele tenha percebido isso todas as vezes. Às vezes ele não notava.
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Um ronco. Definitivamente um ronco.
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Eu comecei a achar que eu era a mulher que ele queria por perto, por cima, por baixo, por dentro. Alguns dias se ele me chamasse pra roubar um banco eu não teria pestanejado nem um segundo, correria para qualquer banco que ele indicasse, portando uma tesoura de unha em busca dos sacos de dinheiro que ele quisesse. Impressionante.
Eu que sempre tinha sido tão sensata e correta. Uma mulher dedicada à sua carreira, estudiosa ao extremo, sem vícios, sem excessos, sem sentimentalismos. Afinal de contas eu tinha que ajudar nas contas de casa desde muito nova, isso não me deixou tempo de sobra pra minha vida particular. Não fui adolescente, adolesci muito rápido à caminho da maturidade. Acho que fiquei madura cedo demais. Bem verdade que depois que eu o conheci eu desconfiei dessa minha maturidade. Ele dizia não ver que eu era madura.
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Mexeu de lado. O ronco diminuiu.
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Éramos diferentes realmente. Desde o início isso era claro como o ar. Eu apaixonada em Dvorak e Bela Bartók, ele ouvia hardcore. Eu conheci esse tipo de música com ele, uma música rápida, gritada, nervosa, me deixava uma pilha. Algumas vezes eu me excitava com essa música “de doido”, outras vezes eu ficava irritada, mas nunca conseguia ouvir o tal hardcore sem sentir nada. Era muito diferente de Cantata Profana e Concerto nº2 para piano. Era nervoso, agressivo, tenso. E eu gostava daquilo. Lembro quando fomos a um show de uma banda chamada Terveet Kadet (ou algo parecido com isso, não tenho certeza) e ele se jogou no meio da multidão, todos com aqueles coturnos enormes e aquelas roupas pretas, e ele se jogava no meio da multidão, com aqueles empurrões e chutes e pancadaria, e ele se jogava no meio da multidão, com um sorriso estampado no rosto e as mãos pra cima, e ele se jogava no meio da multidão, e eu ria muito daquilo tudo. É verdade que ele não notou que eu tinha colocado um tênis e calça jeans. E eu que ficava tão diferente de jeans, mas ele não via a diferença.
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Ele estava roncando. Não dá pra negar.
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Depois ele me explicou tudo que acontecia naquela multidão pulante. Era uma espécie de dança, que eles chamavam de pogo. Parece que teve um rapaz inglês que morreu de overdose que inventou essa dança. E eles diziam “hardicorear”, e eu achava engraçado. Ele não me viu rindo durante o show, e eu queria que ele tivesse visto que eu tinha me divertido. Ele às vezes me perguntava o que eu achava disso ou daquilo, e eu respondia. Mas não era o que eu queria, eu queria que ele visse. Eu queria que ele visse. Eu queria que ele visse.
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Parou de roncar.
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Hoje ele finalmente aceitou vir a um concerto de Bartók comigo. Iam apresentar Contrastes, um clássico inesquecível. Difícil, elaborado, superior. Apesar do que possa parecer, sobre ele ser hardcore e tudo, ele trabalhava numa empresa e usava roupas sociais regularmente, sabia dar nó em gravata, isso eu tinha visto. Ele apareceu glorioso pra nossa noite, com um terno lindíssimo (punks ficam lindos de terno, impressionante), o cabelo penteado de lado, fez o contorno da barba de forma diferente, tirou o anel da mão direita, um sapato novo, com meias da mesma cor, o perfume que ele usava em ocasiões especiais – eu sabia disso – e eu percebi pela movimentação que ele não estava usando nada por baixo das calças. Safado. Ele não viu que eu tinha cortado quinze centímetros do meu cabelo. E supremo descaso, passando a mão pelo meu corpo, não reparou que eu também não usava nenhuma roupa de baixo. Eu que tinha até me depilado diferente, feito um coração, que eu aposto que ia deixa-lo louco. Ele nem viu que eu estava sem calcinha. Meu deus, eu morrendo de medo de sair sem calcinha, e ele não percebe.
Chegamos a sala de concertos vinte minutos antes da hora, e havia uma exposição de Munch na ante-sala. Ele disse que tinha visto “O grito” num encarte dum disco punk. Hum, punk é cultura. Mas ele não percebeu o céu opressor daquela figura derretida em dor, ele não viu o peso do vermelho sangue em ondas correndo sobre aquela humana criatura, ele não viu Munch. E. Munch estava lá, na nossa frente e ele não viu.
E dormiu durante o concerto de Bartók. Durante Sonata para dois ele ferrou no sono. Ao fim da peça ele roncava. Roncava. Durante um concerto de Bartók. Ainda se fosse um de Stravisnky ou Schönberg eu entenderia. Mas Bartók, que praticamente foi punk em suas atitudes, que se levantou contra o nazismo, que proibiu sua família de falar alemão por repulsa ao que acontecia na terra Hitlerista.Bartók que pediu para ter seu nome incluído numa lista de autores degenerados, por não concordar nem aceitar a censura. E ele dorme? Ronca? Ele não viu a clarineta duelando com o violino e o piano em Contrastes, o que foi tecido como uma peça de resistência da música verdadeira, seduzindo até mesmo Benny Goodman. Ele roncava durante Contrastes. Ele não viu Contrastes.
Saímos da sala de concerto e nos dirigimos a um lugar onde gostávamos de namorar. Um morro nos arredores da cidade onde íamos com freqüência. Tinha uma bela vista da cidade, especialmente nesse tempo chuvoso, e podíamos ver as nuvens longe, muito longe. Ele não via. Ficava só me apalpando e tentando beijar meus seios – não que eu não gostasse disso, mas tinha tanta coisa pra ver por ali. Ele não via. Com a desculpa de ficar mais à vontade, eu tirei minha saia. Ele quase enlouqueceu de tesão. Ficava me olhando, com dois olhos enormes de lobo mau, parecendo um lunático, e querendo me amar ali mesmo no carro. Sexo no carro… não fazia isso há anos. Eu não queria sexo. Queria que ele visse. Ele não reparou na depilação que eu tinha feito pra ele ver e desejar. Ele só queria penetrar. Parecia um possesso. Eu sentia que ele estava muito excitado. Era fácil perceber. Eu também estava, isso é verdade, mas não era o que eu queria. Comecei a fazer carinho no rosto dele (e ele apertando minha bunda. Que homem tarado.), beijando o rosto dele, lambendo o rosto dele (olha que dedo mais atrevido. Nunca fizeram isso comigo antes. Hummmm…), acariciando o rosto dele (como a barba dele cresce rápido!), passando de leve o dedo pelo contorno do rosto dele (definitivamente esse dedo aí é muito estranho. Talvez outro momento, agora não.), passando o dedo de leve nos lábios dele, contornando o nariz firme e bonito dele (tirou o dedo, mas não consigo esquecer daquilo), passando os dedos de leve pelo olho direito dele, a pálpebra macia, os olhos fechados de tesão, minha língua na sua orelha, meu dedo no seu olho, o movimento foi rápido.
As minhas unhas, que eu pintara de vermelho somente pra ele (eu mesmo não gostava tanto assim, parecia coisa de mulher sévergonha), firmes e rijas, foram firmemente enfiadas acima do globo ocular do miserável. Parecia a gema cozida de um ovo, e eu arranquei seu olho direito, o olho que nunca via nada, o maldito olho que não me viu nesse tempo todo. Arranquei até o nervo sair do rosto, o globo pendurado pelo nervo, os gritos histéricos dele (homem lida muito mal com dor. Frouxos), as tentativas patéticas de se livrar do meu abraço (eu sou muito forte, sempre fui. Apertei-lhe entre meus braços. Não sai daqui enquanto eu não quiser), o berreiro ridículo que ele aprontou, o tão pouco sangue que sai (achei que ia me sujar toda), e aquele olho pendurado.
Tinha imaginado arrancar os dois, mas fiquei impressionada com o olho saltado do rosto bem barbeado. Dei-lhe um soco no peito direito, para que se acalmasse. Afinal de contas, até onde eu sei, não doía mais. Tenho uma direita poderosa. Peguei o olho na mão, ele tinha parado de gritar finalmente, eu apertei o globo e ele estourou como um balãozinho mal cheio. Como uma gema cozida. Como uma coisa que não servia pra nada.
Nunca havia visto nada. Não ia ver mais nada. Ele não viu Contrastes.
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Contrastes!!
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O Inimigo do rei
Iniciei minhas atividades de treinamento outdoor com a parceria entre IDEA (www.ideiadiferente.com) e AGREGAR (www.agregarrh.com.br) perto de seis ou sete anos atrás. Parceria essa que encorpou ainda mais com a Casa de Walker (www.casadewalker.com.br). Achei sensacional, a experiência de estar em ambiente natural, vivenciando desafios e acompanhando grupos que seriam levados ao seu limite, proporcionando às pessoas experiências únicas e inesquecíveis. Foram inúmeras equipes nessa atividade, momentos marcantes que tive e que me deixavam cada vez mais empolgado com a ferramenta (treinamento outdoor) e com a situação de estar no meio do mato em atividades tão diferentes do meu cotidiano.
Sim, é isso mesmo. Porque sempre fui muito urbano, apreciador do conforto da civilização e das facilidades da tecnologia. Porém o treinamento outdoor já iniciou um movimento de transformação bem sugestivo. Ao invés de realizar treinamentos e palestras em salas com ar condicionado e pessoas cheirosas e sentadinhas, experimentar realizar a mesma atividade de treinamento e capacitação profissional em meio a mato, cachoeiras, rios e corredeiras. Foi uma descoberta.
Mas em pouco tempo comecei a achar que o treinamento outdoor estava atendendo somente às minhas necessidades profissionais, quanto às pessoais algo já começava a faltar. Isso porque no treinamento outdoor eu controlo as variáveis o máximo possível, sei do caminho, programo tudo que vai acontecer e o desafio fica reservado aos demais participantes. Comecei a ler, pesquisar e tentar descobrir o que fazer para atingir esse próximo grau de satisfação que a experiência em ambiente natural vinha me proporcionando.
Foi justamente nesse momento de inquietação que em uma conversa despretensiosa com meu cunhado, Luiz Botosso Júnior, uma ideia surgiu. Ele foi militar, sempre foi escoteiro, então tem experiência e vivência em atividades na natureza. Ele mal sabia o que eu vinha pensando e buscando, porque sempre havia me visto como o urbanoide esparramado na rede ou entalado nos teclados de computador do meu cotidiano. Pois nessa prosa algo começou a se desenhar.
Alguns dias depois ele me manda um e-mail anunciando o que viria pela frente. O que queríamos fazer se chamava “bushcraft” e poderia ser traduzido de forma muito direta e rudimentar como “artes do mato” ou ainda “artes mateiras”. Envolve uma gama de atividades e técnicas e capacidades de sobrevivência, adaptação e ação sobre o meio ambiente, sobre o ambiente natural. Tudo baseado em técnicas que já fizeram parte do cotidiano normal das pessoas, mas que vem sendo gradativamente deixado de lado com o avanço da tecnologia e da aceleração de nossas vidas.
Nos últimos tempos a Tv vem proporcionando algum contato com esse tipo de situação em programas como “À prova de tudo” e “Survivorman” que são transmitidos na Tv a cabo.
Pois foi ali que eu entendi: sim, é isso que eu quero.
Foram alguns meses de preparação, porque nesse meio tempo eu morri e voltei, precisei ficar de molho alguns meses para me recuperar adequadamente e para voltar a realizar atividades físicas mais intensas. E nesse tempo muita discussão, pesquisa e preparo.
Em nossas prosas agora bem animadas, eu e Júnior fomos criando um conceito. Pois a coisa se mostrava como uma grande aventura realmente, e pela clareza que tenho de que não envelhecemos nunca, mas simplesmente mudamos os brinquedos, montamos um grupo e definimos esse conceito.
Criamos a Divisão S.O.M.B.R.A. (Sobrevivência, Objetivos Mateiros, Busca de Recursos & Adestramento), com regras, normas, slogan e convite oficial aos escolhidos.
Aos olhos não treinados, não existimos.
Nossos propósitos são simples e objetivos. Nossas missões são inúmeras.
Não nos verão chegar, não perceberão quando sairmos.
Somos poucos, não chamamos atenção.
Marchamos em silêncio, não deixamos rastros ou marcas.
As matas são nosso local, os desafios e aventuras nossa razão de existir.
Nós existimos sob o sol, na noite nos misturamos.
Nós somos a Divisão S.O.M.B.R.A. (Sobrevivência, Objetivos Mateiros, Busca de Recursos & Adestramento).
Era chegada a hora de organizar nossa primeira expedição. Por motivos vários, os outros convidados a integrar a S.O.M.B.R.A. não poderiam nos acompanhar na primeira expedição, e então seríamos apenas eu e Júnior, doravante chamados Inimigo e Coyote, nossas alcunhas de selva.
Definimos que iríamos realizar nossa primeira expedição no dia 19 de novembro. Além dessa novidade eu atravessava uma mudança de endereço, com caixas de papelão, coisas quebradas e stress associados. Não seria fácil, mas assim se começa uma aventura. De agora em diante a narrativa já não será mais feita por mim, Eduardo Mesquita, mas sim pelo Guerreiro S.O.M.B.R.A., O Inimigo.
A jornada se iniciaria após o almoço de sábado. Na noite anterior preparei meu equipo. Esparramados sobre o sofá de casa, e grande parte do chão da sala, vislumbrei tudo que havia juntado até aquele momento para me preparar para a missão. Naturalmente muita coisa ali seria desnecessária, mas o processo de montagem do equipo demorou semanas, então ninguém poderia me culpar pelo exagero. Claro que a caixa de pé de moleque teria que ser deixada de lado.
Enquanto separava todo o material em kits (sobrevivência, primeiros socorros, fogo, alimentação) e acondicionava em embalagens plásticas e impermeáveis, percebi que realmente na noite seguinte eu estaria dormindo no meio do mato. Mesmo sendo essa uma missão da Divisão S.O.M.B.R.A. de nível 01 (o nível introdutório, sendo que no nível 05 são vários dias e pouquíssimos recursos. Mas isso é assunto para os DO-I – documentos internos), eu estava ciente da única regra absoluta em todos os níveis de missão: proibido o uso de barracas. Sim, iríamos dormir em redes, no meio do mato. Confesso que tremi nessa hora. A ideia de estar em uma rede exposto a qualquer situação e risco de uma mata era tudo que eu havia procurado, e tudo que agora me deixava com as pernas num momento de menor firmeza. Bambas, para ser sincero.
Respirei fundo e continuei a arrumar meu equipo. Não havia tempo para vacilações, e sendo um S.O.M.B.R.A. eu estaria pronto quando chegasse a hora. Material organizado, tudo pronto para sair, fui dormir. Precisava estar descansado para o dia seguinte.
A manhã correu entre compromissos e preparativos, e quando chegou a hora de sairmos em missão, me aprontei e percebi que se havia alguma imagem ideal de um sujeito pronto para – quase – tudo, ali estava a imagem no espelho na minha frente. Eu estava preparado para uma guerra. E a guerra se travaria entre meus limites e minha curiosidade.
Coyote havia sugerido dois lugares para nossa primeira missão, e lamentavelmente a primeira opção ficou inviabilizada pela irresponsabilidade de uma empresa e pela inoperância governamental. Um curtume jogando dejetos em um rio, poluindo todo um bioma, e nenhuma entidade de fiscalização fazendo o que deveria. Teríamos que ir para nossa segunda opção, um pouco mais longe. Paramos perto do Rio Anicunzinho (também curiosamente chamado Anicuns Grande) e nos metemos no mato, em busca do local para montar nosso acampamento. E essa primeira incursão já foi uma prova de fogo. Mato fechado, espinhos, mochila prendendo em ramos, facão na mão e o sangue já escorria no meu antebraço. Um corte longo e eu já dava o sangue pela missão. O primeiro ferimento de batalha, afinal de contas não quero morrer sem nenhuma cicatriz (palavras de Tyler Durden).
Achamos um caminho melhor e lá fomos nós. O sol inclemente deveria ter cobrado um preço mais alto das minhas escolhas, porque Coyote tem seu equipamento praticamente todo militar, verde. O meu equipo é todo preto. Charmoso, admito, mas debaixo do sol poderia ter virado uma armadilha. Aguentei bem. Caminhamos muito e achamos um local para nosso acampamento base, algo perto de 600 a 800 metros para dentro da mata, saindo da estrada. Realmente não era muito longe, ainda ouvíamos os caminhões na estrada, mas era suficiente para uma primeira incursão.
Montamos nosso bivaque, instalamos nossas redes, penduramos nossas mochilas e eu já começava a ter minhas lições mateiras, aprendendo alguns truques simples e eficazes, aprendendo alguns nós que me ajudariam muito e logo saímos para catar lenha para o fogo que precisaríamos. Foi mais fácil do que pensei, mesmo tendo um longo embate com um toco mais robusto, que exigiu muito do meu velho facão. Logo o fogo estava aceso e começávamos a preparar nossa janta.
Fiz o meu espeto enquanto Coyote conduzia um arroz na fogueira. Comemos um digno e surpreendentemente delicioso arroz com linguiças assadas no espeto. Uma refeição de um general, e descobri refastelado que come-se bem no mato.
Logo após descobrimos um ponto no rio, logo abaixo nosso acampamento, que nos serviria para pesca. Eu não entendo nada de pesca – assim como outras coisas – mas Coyote havia levando uma pequena varinha de pesca e ali ficamos por algum bom tempo, curtindo o visual e escutando o barulho delicioso do rio correndo entre as pedras. Até ali eu já tinha tido muito para estar satisfeito, mas mal sabia eu que nada havia acontecido ainda.
A noite cai rápido no mato. O barulho no céu anuncia chuva, e ficamos no acampamento saboreando uma deliciosa cachacinha e batendo um papo bom. Quando então um momento mágico, que somente no meio do mato pode-se apreciar. Uma nuvem de vagalumes, com suas luzinhas verdes, surge sobre nosso acampamento. Me senti bem vindo a Pandora naquele momento, tudo lindo, a fogueira, os vagalumes, o cheiro de chuva e a noite se revelava mágica em leds verdes.
Fomos pescar, degustar um charuto (quisera fosse um bom charuto, mas o Titã seria suficiente para uma noite) e mais alguns goles de genuína e generosa cachaça. Coyote volta ao acampamento para buscar iscas e vive mais um momento inesquecível da jornada: dá de cara com uma capivara com grandes olhos assustados, embaixo da sua rede. Ele havia ouvido o tropel de algumas antes, mas não havia visto, mas ao chegar ao acampamento, lá estava uma delas, debaixo da rede, olhando para ele. Duas criaturas assustadas na noite. Um encontro.
Não pescamos nada, mas a prosa se estendeu por horas na beira do rio. Já viveu isso, pequeno gafanhoto? Uma prosa boa, cachaça honesta, charutos e o rugido do rio aos seus pés? Não? Não sabes o que estás perdendo.
Voltamos ao acampamento base para tentar encontrar um local de águas mais tranquilas para tentar a sorte com os anzóis. Um barranco perto da base mostrou-se ideal. E naquela noite tranquila, Coyote falava e contava histórias e eu já começava a ressonar, sonhando até, me preocupando em não dormir e desabar daquele barranco. Encerramos a pesca e resolvemos ir dormir, e quando comecei a arrumar minha rede ouvimos um arrastar forte nas folhas ao nosso redor.
Ligamos as lanternas, meu coração ultrapassou as escalas de velocidade e força. Ficou ainda mais forte e rápido quando percebemos que o que quer que fosse, não havia se afastado quando ligamos nossas lanternas. Fosse o que fosse era muito corajoso, violento ou sem noção. O bicho não havia se assustado, eu estava assustado para mais um ano de pavor. O barulho aumentava, o bicho vinha em nossa direção. Foram segundos – sim, segundos – de intensa expectativa e o barulho aumentava e se aproximava. Eu mal respirava nessa hora e só conseguia pensar em meus alunos, clientes e colegas de banda que eu jamais veria novamente (hehehe). O barulho aumentava e finalmente vislumbrei aquele par de olhos flamejantes e aquela expressão de fúria. Sua cabeça era do tamanho de um frigobar e seu corpo do tamanho de um Fiat 147, escamas do tamanho de bandejas e ali estava ele olhando em meus olhos: o poderoso Tatu Dragão!!
Tá, tudo bem, não era assim tão grande, mas lembre-se do medo que eu estava passando. Era um tatu bem grandinho, um tatuzão mesmo. Do tamanho de um cachorro grande, tipo um enorme Shitzu bravo. Olha, pode parecer exagero, mas aquela hora da noite, quase madrugada, no meio do mato, naquela barulheira toda, ele podia pesar meio quilo que para mim ainda ia parecer o temível e assombroso Tatu Dragão!!!
Entramos em frenética perseguição, mas era uma espécie de Tatu Vietcongue, profundo conhecedor do terreno e dos intestinos do terreno. O bicho desapareceu completamente.
Como dormir depois desse susto? Muito fácil, só estar detonado de cansado como eu estava. Vesti minha balaclava – para não entrar inseto na boca ou na orelha – e dormi o sono dos justos e inocentes. Aquela rede era uma cama do Blue Tree naquele momento, acreditem.
Acordei bem cedo, o dia começava a romper, a rede começava a esfriar e eu vi o dia clarear de forma magnífica. Um café da manhã digna de nobres, com café de fogueira (feito com água de vagalumes), pão, castanhas variadas e smoked water (água enfumaçada, no nosso dialeto, um gosto de fumaça de lascar).
Saímos para explorar o local, e eu tinha uma missão: encontrar o meu cajado para trilhas. Entramos na mata e descobrimos encantados uma enorme família de macacos nas árvores, eles assustados, nós de queixo caído. Uma, duas, centenas e milhares de árvores gigantescas, a umidade elevadíssima, a mata fechada e nessa parte da jornada descobrimos locais sensacionais para uma segunda missão. Para novas bases, e nesse momento nosso “apartamento” ficou sem graça, porque vimos locais muito mais legais para montar nosso acampamento base, locais ótimos para pescar e locais para ficar de bobeira.
Voltamos para a base, pegamos a vara de pesca e iscas e tiramos algumas boas horas pescando na curva do rio, numa pedra especialmente desenhada para nosso conforto. Ali estavam os SOMBRAS e a água fresca, curtindo o ventinho do meio dia. Retornamos à base, fizemos nosso almoço com um arroz e linguiças defumadas e nos preparamos para retornar para a civilização.
Desmontamos tudo, montamos nossas mochilas, apagamos cuidadosamente a fogueira (acabando com qualquer possibilidade de brasa, fagulha ou faísca), apagamos todos os nossos traços e nos dirigimos ao nosso carro. A volta foi recheada de comentários, risadas e novos planos.
Para completar o fim de semana inesquecível um maravilhoso momento na piscina com meus tubarões e Minha Delícia, arrumações do equipo e o início da parte mais chata e desagradável da missão: catar os carrapatos no corpo. Eu achei oito em mim, Coyote descobriu 27 nele.
A primeira missão da Divisão S.O.M.B.R.A. foi sensacional. Infelizmente não consegui cumprir a minha missão de encontrar meu cajado para trilha, mas graças a uma dica do Coyote, penso que isso esteja perto de ser resolvido. O BOPE diz que “missão dada é missão cumprida”, nós também acreditamos nisso, mas em algumas situações, nossas missões não são cumpridas, mas são compridas.
Essa foi só a primeira, muitas ainda virão. D2, Dente de Sabre e Claudinho se preparem, nós existimos sob o sol, na noite nos misturamos.
Sou Sombra.
Selva!
Por Juliana Castro, no Globo:
A marcha contra a corrupção convocada para o feriado desta quarta-feira está sendo organizada pela internet há pelo menos um mês e contará com eventos 25 cidades em 17 estados, além do Distrito Federal. Os organizadores dizem não ter expectativa sobre o número de pessoas que podem comparecer aos atos – boa parte deles simultâneos -, mas esperam superar a barreira dos 25 mil manifestantes, que foram às ruas no Sete de Setembro .
Com três cidades, São Paulo e Santa Catarina são os estados que terão o maior número de protestos. No Rio, pelo menos sete grupos de combate à corrupção vão se reunir na orla da Zona Sul. A concentração acontece no posto 4 da Praia de Copacabana, às 13h. Os manifestantes saem em caminhada às 14h, rumo ao posto 2. Aos moradores de Copacabana, os organizadores têm um pedido especial: colocar vassouras do lado de fora da janela, para demonstrar apoio ao movimento.
O protesto do dia 20 de setembro, na Cinelândia , contou com o apoio de artistas e um dos que estavam presentes, o cantor Tico Santa Cruz, gravou um vídeo para convocar os brasileiros a saírem de casa para manifestar seu repúdio à impunidade. “Estou aqui para convocar todos os brasileiros indignados com a corrupção, a impunidade, a violência e a omissão. No dia 12, você pode fazer parte dessa luta. Saia de sua casa”, diz o cantor no vídeo, confirmando presença no evento desta quarta-feira.
A divulgação pela internet ganhou na terça-feira um reforço. Os organizadores se juntaram e promoveram um twittaço para informar corretamente o dia, local e horário da manifestação no Rio. Nem mesmo a previsão de chuva desanima: “A previsão é de sol entre nuvens, podendo chover. Estou torcendo muito para que não chova. Mas, mesmo com chuva, tenho certeza de que as pessoas interessadas vão comparecer ao evento – disse Cristine Maza, do movimento “Todos Juntos contra a Corrupção”.
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Confira o local e o horário do protesto contra a corrupção, na sua cidade:
AL – Maceió – Antigo 7 Coqueiros até o Antigo Alagoinhas, às 13h
AM – Manaus – Centro, em frente ao colégio Dom Pedro, às 14h
BA – Salvador – Cristo da Barra, às 14h
CE – Fortaleza – Praça da Imprensa rumo ao Cocó, às 14h
DF – Brasília – Museu Nacional, às 10h
ES – Vila Velha – Praia da Costa, às 12h
GO – Goiânia – Início na Praça Universitária às 10h e término na Praça Cívica
MA – São Luís – Praça do Pescador , na Avenida Litorânea, às 14h
MG – Belo Horizonte – Saída às 14h da Praça da Liberdade até a Praça 7
MG – Uberlândia – Praça Tubal Vilela, às 14h
PA – Belém do Pará – Praça do CAN, às 14h
PA – Santarém – Concentração em frente à prefeitura, às 17h, até o fórum
PE – Recife -Pracinha de Boa Viagem, às 14h
PB – João Pessoa – Busto de Tamandaré, às 14h
PI – Teresina – Praça da Liberdade, às 14h
PR – Curitiba – Santos Andrade, em frente à escadaria da UFPR, às 14h
PR – Campo Mourão – Praça Central, às 14h
RS – Porto Alegre – Parque da Redenção, durante toda a tarde
RJ – Rio de Janeiro – Copacabana, em frente ao posto 4, às 13h
SC – Brusque – Praça Barão de Schneeburg, às 9h
SC – Florianópolis – Trapiche Beira Mar, às 10h
SC – Jaraguá do Sul – Praça Ângelo Piazera, às 14h
SP – São Paulo – Avenida Paulista, em frente ao Masp, às 14h
SP – Santos – Parque da Independência, às 14h
SP – São José dos Campos – Vicentina Aranha, às 15h
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Há braços!
Eduardo Mesquita
eduardo@ideiadiferente.com
twitter – @eduardoinimigo
01 de outubro de 2011. Essa vai ser uma data que vou me lembrar por muito tempo ainda. E entendo se alguém quiser “dar um desconto” no que parece apenas uma hipérbole rebarbativa do meu conhecido jeito exagerado de ser, até porque alguns anos atrás numa comunidade orkutiana era comum ler comentários de produtor de evento sempre dizendo que o show porco do fim de semana tinha sido “histórico” ou “memorável”. Isso durou até um boca dura soltar um “Pára, né”, apontando o evidente descalabro da consideração. Aí por um tempo tivemos paz.
Mas então se você quiser achar exagero, eu ainda não me dou por vencido. Repare que disse que será uma data que EU vou demorar a esquecer. Não estou afirmando que o show entrará para a história dos shows punk rock/HC da cidade, nem digo que quem esteve por lá presenciou um momento único, ou sequer vou dizer que em raras ocasiões o Martim Cererê teve um evento com o astral tão positivo e harmônico, combatendo orgulhosamente as lembranças sangrentas das caixas d`água. Não afirmei, mas pode entender tudo isso. O que foi cometido no sábado, 01 de outubro de 2011 (decore essa data, vai virar matéria de prova em faculdades pelo mundo afora), por Walkir “Inseto” e seus cúmplices da Insetu’s foi algo fora da escala, além de padrões mercadológicos ou ideologias fascitizantes que mais aprisionam o pensamento que permitem larga expressão. Foi uma noite marcante. E não, não foi um sucesso absurdo de público, não lotou o Martim até as tampas, muitos prometeram ir e faltaram, mas olhando agora penso que tivemos o tanto certo de pessoas para viver aquela noite. Se era para ser lembrada, quanto menos de nós presentes, maior seria para cada um de nós a parte da honra. Porque se ambicionar a honra é pecado, então sou uma das almas mais pecadoras que existe. Ainda vai chegar o dia em que vamos mostrar o risco da lágrima no rosto, o hematoma conquistado na roda de HC, a mancha de cerveja na camiseta e vamos dizer orgulhosos “Recebi essas marcas no dia 01 de outubro de 2011, a noite dos Insetu’s!”.
A ideia do evento já era algo chamativo: Olho Seco. A banda histórica, parte fundamental do início do movimento punk nacional, com toda a sua história de idas, vindas e recessos, tocando em Goiânia. Para aumentar a pilha tivemos a terrível notícia da morte de Redson (veja post abaixo), que foi um membro fundador do Olho Seco. A reunião de bandas extremas aumentava o interesse pela noite e tudo configurava um troço mágico.
Walkir e seus asseclas ralaram muito, por quase ou mais de um ano alimentando a produção, correndo, brigando, suando sangue para colocar tudo funcionando. Nunca é fácil, mas Walkir já se encontrava a um mês dormindo mal e a uma semana sem dormir nada. Muita expectativa, companheiros participando ativamente, os lindos do Licor de Chorume – http://licordechorume.blogspot.com/ – patrocinadores, apoiadores e as bandas, todo mundo consciente da importância do que iria acontecer e ansiosos para fazer parte. Muita gente de cabelo branco – ou sem cabelo nenhum – ansioso como guri de 15 anos em sua primeira noite. Para muitos seria uma primeira noite.
Para alguns seria a primeira vez tocando no Martim, templo do rock independente da terrinha pequizenta. Para alguns seria a primeira vez num evento punk rocker autêntico. Para outros seria a primeira noite mais longa esticada na balada (muita molecada presente, isso é bom). E para a maioria seria a primeira vez num show do Olho Seco, a única banda tradicional e fundamental do punk rock brazilis que ainda não tinha estado por acá.
Para o SANGUE SECO seria uma noite importante, naturalmente. Estamos em processo de produção das novas músicas para o próximo Cd e já tínhamos realizado recentemente dois shows divertidos demais experimentando essas composições. Mas agora seria num palco que nós adoramos, com nosso público especificamente e tudo apontava para algo que deixaria cicatrizes. Ensaios, reuniões com a produção, correria e muito trabalho na internet, divulgação, contatos, merchandising, um monte de atividades conjugadas para aquela noite.
E lá fomos nós. Tudo começaria às 17 horas, e todos foram avisados sobejamente sobre a pontualidade que precisaria ser obedecida. Mas naquela tarde de sábado surge uma novidade boa que era ruim: chuva. Goiânia já estava há 19 anos sem chuva (a sensação era essa) e naquela tarde quieta, o céu se abre em lágrimas e lá vamos todos ficar preocupados: “Putz, choveu! Vai espantar a galera.” Isso porque o público punkHC é composto em sua maioria por gurizada, que depende de ônibus, que tem a grana curta, e que ao ver chuva no céu logo imagina que o evento não vai virar. Isso espanta gente, é a dura verdade.
Mas vamos em frente. Busquei meu afilhado Luiz do outro lado do município e nos dirigimos para o Cererê. Chegamos na porta exatamente 17 horas e o local ainda estava fechado, algumas poucas dezenas de pessoas na porta e eu fiquei preocupado. Walkir corre para lá e para cá, ansioso e elétrico, Júnior faz o social com as bandas de fora e Josias é o Josias. Hehehe
Entramos finalmente, e entre abraços, tapinhas nas costas e sorrisos para velhos amigos, a noção de que o festival iria atrasar. Para mim aquilo se revelava preocupante por pensar em shows mais curtos e num possível problema de horário no final de tudo, o que criaria complicações significativas para os produtores. Essa preocupação se revelaria exagerada felizmente. Os plásticos que enfeitavam os portões do local mostravam grafites homenageando Redson em cores e caveiras, além do belo banner na porta do teatro trazendo a emoção e dor nas poucas palavras.
Coerência não iria tocar, infelizmente seu baterista teve problemas particulares para resolver e precisou ir embora. Uma pena, estava curioso pelo som da banda. Mas tudo começou com Overcome, com quase uma hora ou mais de atraso. O palco muito simples, com iluminação pouca e tímida não ajudava, mas a banda enfrentou a abertura dos trabalhos com dignidade. Um som que eu não consigo rotular, se é HC melódico, se é HC, se é… sei lá. Sei que gostei muito, do som e da competência em quem cometia o som. Tirando o fato da camisa imunda que o baterista usava, ele conquistou respeito com pancadas precisas, com a primeira homenagem ao Redson nos palcos daquela noite e com o uso impecável do idioma pátrio, porque um sujeito que diz “Esse é o Overcome, uma banda ORIUNDA de Goiânia” mostra que tem leitura. Oriunda!!! Respeito quem tem informação e não se acanha em usar. O vocal da banda é feminino e a guria tem uma voz que me deixou assombrado, ela cantava mais grosso que eu!

Sofreram com o público ainda pequeno e frio que estava no teatro. Sofreram ainda com seu jeito tímido e ainda verde, todos meio acanhados no palco, talvez com exceção feita ao baixista que fazia caretas temíveis enquanto debulhava suas cordas. Mas a banda pode ganhar muito com mais estrada, desenvoltura e contato com o público. Sempre sinto falta do contato com o público.
E aí vinha o Death From Above, um dos nomes de banda mais legais que eu já vi, com suas lembranças de guerras e combates que inclusive dão o tema de parte das letras da banda. Deve ter sido uma noite intensa para eles também, porque o Glauco Mingau já tinha dito em outros momentos sobre a influência do Olho Seco em seu som e sua vida. O DFA faz D-beat, e mesmo sendo um pouco além da minha capacidade de gostar, é muito bom ver uma banda que se leva a sério daquele tanto. O show é mandado pelas pancadas violentas e seguras de Tiago Slake, e eles não fazem discursinho, nem preparam introdução, é porrada no pé da orelha do começo ao fim. Nível internacional, realmente. E fiquei feliz em ver o palco, nesse outro teatro a estrutura era infinitas vezes melhor, com luz muito mais preparada além de outras firulas e luxos que, se não fazem falta, também mal não fazem. Respondendo ao pau puro dos três insanos, o público se mexe e abre a primeira roda de HC da noite. Muitas ainda viriam.
O Abalo Sísmico foi uma das bandas que vi muito pouco. Entrei no teatro e me chamaram para sair, vi o início do show e me pareceu um punk rock clássico, mas infelizmente não deu pra ver nem as caras dos indivíduos. Penso ter visto um cabeludo estranho no palco, parecido com Josias, mas não tenho tanta certeza, como disse eu saí muito rapidamente. E fui para o outro teatro preparar para o show do Sangue Seco.
Não costumo comentar shows do Sangue Seco, naturalmente. Se normalmente já não sou imparcial nos textos, falando da minha banda então que eu não conseguiria mesmo. O fato é que foi um dos dois melhores shows da história da banda, e falo “um dos dois” para dar uma chance ao acaso, porque no meu peito eu sinto que foi O melhor show de nossas vidas. A banda estava afiada, o público respondeu demais, cantando, pulando, abrindo rodas insanas e nós estávamos empolgados. Havíamos conversado antes e decidimos não tocar nenhuma música do Cólera, havia a grande possibilidade de não conseguirmos – afinal os 4 Sangues estavam (e ainda estão) abalados com a morte do Redson – e além disso, o Ímpeto faria uma homenagem mais tarde tocando apenas músicas coléricas. Fizemos nosso set e decidimos que nossa homenagem seria em “Grândola, Vila Morena” que o Cólera já gravou e que nós vamos gravar nossa própria versão no próximo Cd, e em “O grito é nossa voz” do nosso Cd anterior – que você ouve e baixa no http://sangueseco.tnb.art.br/ – que teve a participação do Redson dividindo os vocais comigo. O show nem começou grandes coisas, confesso, mas foi pegando pressão e logo eu pulava feito um moleque pelo palco, Guga e Alemão saltavam e cabeceavam e parecíamos ter 20 anos de idade. Quando tocamos “Grândola”, além do nó na garganta natural pelas lembranças que a música nos trouxe, ainda vejo ao lado do palco Pedro, filho de nosso amigo Xikão. O guri de três anos de idade pulava e dançava, fazia air guitar e não resisti e peguei Pedro no colo. Foi o suficiente para Aurélio destampar a chorar na bateria, tocou a música inteira vertendo lágrimas quentes na cara grande. Tudo caminhava belamente para nossa diversão, erros reduzidos ao mínimo possível e tremenda empolgação, quando na nossa última música resolvemos homenagear outro falecido amigo nosso, Cláudio, tocando “Valas de Esgoto” do HC 137. Quando as coisas vão bem, elas sempre podem melhorar, e vejo Lulu Star – também chamado Luciano Xavier – membro histórico do HC137, na beira do palco. Entrego o microfone para o feio sujeito e faço algo que jamais havia feito em minha vida: pulo para a roda de HC. Quarenta anos de idade, quatro cirurgias cardíacas no peito, um óbito, dois filhos, impostos e calvícies, e lá fui eu correr em círculo junto com uma cambada de macuquentos que nos faz tão feliz. Volto ao palco a tempo de participar do fim da música e encerrar uma noite que jamais vamos esquecer. A banda vibrava ainda ao final do show, foi sensacional! Os comentários que ouvimos nos mostravam que realmente algo tinha acontecido de muito bom ali, e quando Felipe CDC, o fantasma-que-anda do Distrito Federal, nos brindou com seu comentário, vi que a missão havia cumprida dignamente. Honramos o convite, nos divertimos, combatemos o bom combate. (olha a cara feliz dos meninos depois do show, ainda parecia aguentar mais uma hora de aventura!).
No outro teatro Tarja Preta iniciava suas preleções e foi outro show que não presenciei. No corre de arrumar o “depois do show” não peguei muita coisa, e quando entrei no teatro só vi metade da última música. Não consegui perceber ou entender quase nada, foi breve meu contato. E volto ao lado de fora, que nessa noite estava simplesmente mágico, com aquele tanto de “camisas pretas de cabelos brancos” dos velhos tempos, com as prosas, lembranças e emoções.
Descarga Negativa tem Walkir na frente, e isso já seria motivo para presenciar. Além do fato de ser uma das bandas mais antigas do gênero. Mas o melhor não é o som tradiça, ou a garra dos caras no palco, o melhor são os discursos do Walkir. Aurélio sentado ao meu lado fez a síntese perfeita: “Cara, ele fala e o povo escuta e entende o que ele quer dizer. Isso não é fácil!”. Realmente a sintonia com a plateia era bonita de se ver, e o Descarga – que se houver alguma justiça no mundo e vergonhanacara na banda, ainda gravam alguma coisa – atravessou aquele palco derramando dignidade e coerência. Muito divertido ver o baterista puxando os inícios das músicas para interromper os discursos do Vovô Inseto Walkir, porque é nítido que essas palhaçadas acontecem no palco porque os caras são amigos, ou melhor, AMIGOS.
Já conhecia os candangos dos Maltrapilhos. O Sangue Seco dividiu palco com eles duas vezes no Círculo Operário do Cruzeiro, e sempre curtimos muito aquele som punk 77 politizado dos caras. Fui para o teatro, portanto, sabendo que ia gostar, mas fiquei completamente surpreso com o que vi. A banda está muito, mas muito mais poderozza do que jamais vi na vida ou ouvi no Cd. Honestamente, parecia outra banda. Furiosa, agressiva, coesa, muito mais pesada do que eu me lembrava, e eu fiquei ali do lado empolgado em ver uns sujeitos da minha geração – leia-se “dinopunks” – detonando a sanidade dos presentes daquela forma. “Não aguento mais”, “Não acredito” e a melhor de todas (que eu não me lembro corretamente o nome nem entendo minha letra nas anotações) “A desgraça sorri quando encontra um otário” fizeram um set maldozzo e levado. Grande show!
Confesso não ter entendido o som do Madre Negra, também do DF. Além do nome sensacional, o som dos caras foi o mais diferente da noite punk rockers, com umas levadas mais suingadas, um jeitão funk blakxploitation e um vocalista poeta. Entre uma música e outra ele sempre enfiava um texto/poesia/provocação que só me fez lamentar ainda mais pelo teatro ter ficado tão vazio. Aparentemente a molecada presente queria só a moeção e rodas violentas, quando encontraram aquele som que dizia mais ao cérebro e aos quadris, não prestigiaram. Mas ainda assim o MN fez sua presença valer a pena.
E aí vieram os filhasdaputas do Ímpeto. Metade do Sangue Seco toca no Ímpeto, e o Aurélio ainda fez uma música com eles, o que faz uma banda ser praticamente filial da outra. Além de ser outra banda longeva, tem uma fama de ser banda safada que ensaia e compõe só quando o Halley passa pelo planeta, mas muito mais que isso, é uma banda de caras que cresceram ouvindo Cólera. E isso prenunciava um momento belo. Um “varal” de discos do Cólera enfeitava o teatro, trazendo lembranças. Emocionados com o falecimento do Redson, os impetuosos resolveram fazer o show inteiro só com músicas do Cólera, sem tocar nenhuma música própria do Ímpeto. E fizeram isso com competência e galhardia. Mas não acredite que isso quer dizer que tocaram perfeitamente, sem erros, com técnica e apuro preciso, porque se fizessem isso não seria o Ímpeto. A competência no caso se deve à sinceridade e amor dedicados à obra da banda tão importante para nossas vidas, o Cólera. Foi inevitável. Enquanto 99% dos presentes no Cererê se esgoelava, invadia o palco, cantava junto, pulava na roda, o restante 1% (eu incluído) se debulhava em lágrimas, chorando feito criança ao ver que não havia sido em vão. Tudo que Redson disse e acreditava tinha caído em bom solo, e ali os guris mostravam que aquelas letras e aqueles acordes são para sempre. Foi um show lindo! Eu só parava de chorar pra invadir o palco e cantar junto, e foi um toque de carinho de uma banda tão sem vergonha como o Ímpeto. Lavamos a alma chorando juntos, eu, Aurélio, Léo Bigode, Eduardo Mesquita e tantos outros velhuscos emocionados.
E aí eu não vi nem Agrotóxico (vi um pedacinho de uma música somente) e nem ARD (esse não vi nada) porque estava do lado de fora me recuperando de “tantas emoções” vividas, trocando experiências e lembranças com os presentes. Nem lembrei que ainda estavam rolando shows, mas aí chegava a hora de ver o Olho Seco. E quer saber? Achei pouco.
Não, o show não foi ruim. Foi bom, mas foi só isso: bom. Esperava um show muito mais intenso, mais porrada, mais emocionante, mais cheio de lembranças, mas o show foi só bom. A banda é de uma competência assassina, as músicas já se vem provando sensacionais por décadas, mas confesso ter ficado frustrado com a postura de Fábio no palco. Achei frio, distante e até cochilei no meio do show. A plateia estava muito mais intensa que ele, e fiquei ainda mais incomodado por não ter ouvido palavra nenhuma dele em lembrança do amigo Redson. O guita da banda mencionou essa lembrança, mas num show que tinha potencial para ser muito mais, como foi o show do 365 em SP – leia o texto do Dum de Lucca sobre o show aqui http://dynamite.com.br/jukebox/2011/10/o-365-volta-com-punch-e-disco-novo/ – ou diversas outras homenagens país afora.
O erro talvez tenha sido meu, fui esperando algo cerimonial e vi um bom show de punk rock/hc. Queria algo histórico, a altura das minhas lembranças da primeira vez que ouvi Olho Seco no Split com o Brigada do Ódio, e vi uma banda competente, pesada, preparadíssima tocando hits quase eternos. O erro foi meu, porque a noite inteira estava sendo tão acima da média, que esperei isso do show da lenda. E o Olho Seco não tocou como uma lenda, tocou como uma boa banda de rock. Esperei demais…
Mas no geral, a noite foi muito além da normalidade. A explosão de uma sanduicheira, as camisetas vendidas pelo Guga, a cerveja muito gelada, o blend de cachaça que eu havia preparado especialmente, a presença do meu afilhado e de tantos amigos, os shows competentes cometidos durante toda a noite, a absoluta falta de erros e problemas que o público presenciasse, tudo isso somado às lembranças de uma adolescência que já vai longe fizeram a noite de 01 de outubro de 2011 (decorou?) uma das noites cravadas em minha memória.
Agradecer? Aos organizadores, ao Walkir, às bandas e até ao público, que poderia ter sido muito maior? Não. Agradeço ao guri de 16 anos que eu fui um dia, que teve a felicidade de começar a ouvir punk rock, escolhendo um rumo pra vida que me trouxe até aqui, cercado de bons princípios, grandes amigos, a consciência do poder da união e a certeza de que forte, grande, somos nós.
Um grande SALVE aos que compartilharam dessa noite. Para os que ali estiveram a lembrança desse dia – 01 de outubro – nunca chegará sem que venha associada a nossa recordação, a lembrança do nosso pequeno bando de punks, do nosso bando de irmãos.
P.S. – agora é aguardar a resenha do Licor de Chorume, que deve estar saindo a qualquer momento.
P.S. 2 – O Bacural também prometeu um texto, falando dos shows. Aguardemos, pois.
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
twitter – @eduardoinimigo
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Missa de Sétimo Dia do Redson
Sim, é isso mesmo, molecadinha nefasta! Sangue Seco estará curtindo a gig punk rocker com toda a nostalgia possível aos corações envelhecidos, mas ainda ternos, dos quatro dinopunks dessa banda. Para nós vai ser uma noite sensacional e inesquecível, temos certeza, por uma série de motivos. Primeiro pelo reconhecimento dos esforços do Walkir e seus Insetu’s que vem mantendo a chama acesa contra todas as impossibilidades. Outra por causa da presença enorme do Olho Seco, que ouvimos desde moleques. Tem também a oportunidade de reunir esse tanto de punk rockers para homenagear Redson nessa semana que foi tão triste para todos nós que perdemos essa pessoa tão cara.
Vai ser ainda a nossa oportunidade de começar a testar o set novo, e metade das músicas do show são músicas do nosso próximo Cd. Vamos testar as músicas com nosso público, com nosso povo suarento e incansável. Então abaixo as nossas respostas para as perguntas da mini-entrevista. Com vocês, nós do SANGUE SECO.
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Perguntas:
- Como começou a gostar do som extremo?
A minha primeira referência de rock foi Beatles e Raul Seixas, que meu pai tinha várias fitas K7 lá em casa. Mas conheci algo mais pesado com Kiss e passei a gostar de rocks “pauleiras” (assim chamávamos na época). No dia que ouvi o disco do Sex Pistols – Never mind the bollocks – eu entendi que aquilo era o tipo de rock que eu gostava. E quando ganhei e escutei pela primeira vez o “Pela paz em todo mundo” do Cólera, aí eu entendi que era mesmo a música da minha vida, e que eu poderia ainda fazer um dia. Passei a ouvir só punk rock desde então.
- Qual a primeira banda que você degustou desse estilo?
Como dito aí acima, Sex Pistols abriu as portas, Cólera escancarou os portais. Teve também o “Rocket to Russia” do Ramones logo no início e “Pânico em SP” do Inocentes, que eu demorei a gostar, mas virou de cabeceira.
- Como começou sua história com Olho Seco? Lembra quando ouviu a primeira vez?
Naquele Split com o Brigada do Ódio. Lembro de achar Olho Seco muito legal, e Brigada uma desgraça sem lógica nem sentido. Muito barulho. E aí eu comecei a procurar os antigões “Sub”, “Ataque Sonoro” e “Grito Suburbano”.
O Sangue Seco já tem seis anos de vida, tocamos em vários lugares do país (Brasília, Cuiabá, Palmas, Goiânia, Aparecida, Itaberaí, rsrs) e abrimos para Cólera, Garotos Podres, Albert Fish, Tequila Baby, Matanza, Napalm Death e um monte de bandas sensacionais. O nome da banda veio de uma prosa no MSN minha com o Guga, discutindo o nome. E aí caímos numa conversa meio poesia concreta sobre “Pó de Sangue” que podia ser “Pode Sangue”, mas virou Sangue Seco. E também porque tem muita gente tentando inventar moda e novidade que é chamada de Sangue novo, pois nós não queremos inventar nada, queremos tocar o velho punk rock que ouvíamos na adolescência temperando com um HC e um poquito de metal. Não queremos criar nada novo, somos sangue velho, encruado, seco. E o sangue seco, na biologia, é uma substância que nunca perde suas propriedades. Pronto. Planos? Lançar mais um Cd o mais rápido possível e fazer muitos shows legais, a gente gosta muito de tocar e ver o rosto suado da molecada.
- Expectativa para esse show?
A expectativa é imensa e gigantesca, porque é o momento de celebrar as batalhas do Walkir, incansável. É o momento de celebrar o retorno de uma banda histórica como o Olho Seco. É ainda o momento de homenagear nosso grande amigo e irmão Redson, que faleceu essa semana. E é o momento de estrearmos várias músicas do próximo Cd ao vivo.
- Fale sobre a iniciativa da Insetu’s em levar no peito essa produção.
Esses caras são loucos e maravilhosos. Conseguiram fazer um puta bom trabalho e ainda melhor porque juntaram um tanto de gente boa pra ajudar, pra dar apoio, pra ralar junto. Muita gente usa mal a palavra “brodagem”, confunde com favorecimento e compadrio. Pois quem quiser aprender o que é brodagem de verdade, acompanha o trabalho do Walkir e da Insetu’s, do Licor de Chorume e vai entender como é que funciona. E vai no show, porque as bandas todas estão conscientes do papel, de ajudar, de dar apoio e vamos todos trabalhar juntos para deixar uma grande marca na cara dessa cidade. Talvez do mundo.
Vamos em frente!
Eu sou um daqueles animais que depois de um certo tempo ficam com preguiça de ouvir coisas novas, assumo. Isso aconteceu comigo mais ou menos ali em 1978 huauhahuahuahuahuahuahuahuahuahuahua. Pra conhecer coisa nova é um parto de porco espinho, e com isso eu acabo sem saber das coisas por minha própria verve. Mas tenho grandes bons contatos que me alimentam de informações, e o que eu ouço falar desses caras aí sempre é muito bom e produtivo. Mesmo o hardcore melódico sendo muito mais do que eu consigo digerir, mesmo não sendo o estilo de som que eu gosto de amor doido, ainda assim eu sei reconhecer quando uma banda se esforça, faz seus ralas e vai conquistando seu espaço. Ou você acha que esses guris entraram numa escalação recheada de velharias como a desse festival pela carinha bonita? Os guris já tem credibilidade, mantendo a coerência. Com vocês, Coerência.
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1- Cara, foi vendo nome de bandas em camisas e adesivos de outras bandas, por exemplo, o baixista do Guns,Duff Mckagan, que usava muito camisa do Danzing, Ramones, Slayer, Obituary, dae fui indo atraz pra conhecer, o progama musikaos tambem e as trilhas sonoras de Pro Skate Tony Hawk tambem me mostrou muita coisa boa e reforçou tudo isso.
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2 – Ramones, foi meu primeiro contato com o “som sujo”, depois eu comecei a ouvir muito a velha guarda hardcore, com Blag Flag, Minor Threat, Bold e outras.
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3 – Eu descobri olho seco assistindo Musikaos, achei foda, era bem moleque e não sacava muito das bandas nacionais, então quando descobri olho seco achei foda !
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4 – Coerência surgiu da vontade de tocar mesmo, querer somar com o hardcore alem de ir em shows, mais contribuir com isso, fazer tambem ! A uns dois anos atraz o Régin tava querendo voltar a tocar e já tinha trocado idéia com o bruno sobre isso, o Bruno era meu vizinho, sempre trocavamos idéia sobre o som, ele sabia que eu tinha um baixo em casa, não que eu sabia tocar, só tinha o baixo, ainda não sei tocar hahaha, mais ai nos juntamos e demos a partida na banda. A banda toca hardcore melodico despretencioso, abordando o cotidiano como tema, unir o velho ao novo e não usar a musica como vaidade, acho que é por ae. Quando montamos a banda, não tivemos muitas idéias de nomes, apareceram uns 2 mais nem demos idéia. Quando falei Coerência, ficou meio assim, achamos uma palavra muito forte, mais resolvemos levar até aparecer um melhor, mais o nome Coerência e a banda foi andando junto, até que ficou. Não quer dizer que somos coerentes, é tudo uma questão de saber enchergar as coisas.
Lançamos nosso segundo E.P agora, o “viver e navegar” de forma DYI, então por agora o lance é divulgar ele, terminar as musicas que temos que terminar e tocar muito, tocar o foda-se !
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5 – As expectativas pra esse show são as melhores né, nunca pensei na minha vida que iria tocar no mesmo evento que Olho Seco, os caras são Dinossauros né e estamos começando agora.
Nossa banda é diferente das de mais né, por fazer um som mais “mélodico” e eu boto fé que vai ser foda !
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6 – Porra, uma puta iniciativa né, levantar um evento desse cunho todo nas costas ! É foda, não é pra qualquer um, é bom saber que tem gente que se importa, no que podermos ajudar, estamos ajudando. Eu boto fé que dia 01 vai ser um dia memoravel, 10 anos de luta pelo punk hardcore sem nenhum “apoio”, merecem todo o meu respeito !
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Há braços!
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
twitter – @eduardoinimigo
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Perguntas:
- Como começou a gostar do som extremo?
- Qual a primeira banda que você degustou desse estilo?
- Como começou sua história com Olho Seco? Lembra quando ouviu a primeira vez?
- Fala da sua banda: história, motivo do nome da banda, planos futuros.
- Expectativa para esse show?
- Fale sobre a iniciativa da Insetu’s em levar no peito essa produção.









